
Ciência e tecnologia: Sérgio Rezende apresenta diretrizes para o Brasil
04/05/2026
Painel debate a soberania tecnológica no setor de energia durante o XI Congresso ABIPTI
05/05/2026A Dra. Margarida Mano, ex-ministra portuguesa e atual presidente da Transparência Internacional na União Europeia, apresentou uma análise rigorosa sobre o papel da Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) em um cenário global definido por tensões assimétricas e competições sistêmicas. O posicionamento ocorreu durante a programação da Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (ABIPTI), onde a especialista discutiu como o setor deve se comportar diante dos desafios geopolíticos contemporâneos.
O cenário global de 2026 revela que a CT&I transcendeu as fronteiras acadêmicas para consolidar-se como o núcleo da estratégia geopolítica contemporânea. Conforme exposto pela Dra. Margarida Mano, “o domínio sobre padrões tecnológicos e cadeias de dados define hoje a extensão da soberania nacional. Este novo paradigma é exemplificado pelas potências globais. Enquanto os Estados Unidos consolidam sua liderança através da estratégia “Winning the Race”, focada na infraestrutura e diplomacia de Inteligência Artificial (IA), a China implementa o ambicioso programa “AI Plus”, visando uma penetração tecnológica de 90% em sua economia até 2030. Em contrapartida, a Europa enfrenta um risco iminente de desindustrialização, exigindo aportes anuais na ordem de 800 mil milhões de euros para reaver sua competitividade frente ao eixo sinoamericano”.
A dinâmica das fronteiras científicas impõe uma aceleração sem precedentes. Na análise da especialista, a vantagem estratégica reside na capacidade de testar, aprender e escalar soluções sob condições de incerteza. Todavia, a transformação do risco científico em oportunidade estruturada depende intrinsecamente da estabilidade do investimento. “Hiatos no financiamento de CT&I não resultam apenas em atrasos cronológicos, mas na erosão de talentos e na perda de capacidade instalada, comprometendo a inovação sistêmica em favor de iniciativas isoladas e insuficientes”.
Ao abordar a cooperação lusófona, Margarida Mano destacou as virtudes complementares de Portugal e Brasil. “Portugal, inserido na rede europeia, destaca-se pela especialização e pela capacidade de converter capital humano em valor agregado. Já o Brasil possui um potencial extraordinário pela sua escala e diversidade, enfrentando o desafio persistente de conectar seu robusto sistema científico à economia real e ao território. A integração entre laboratórios, indústria e sociedade é apontada como a chave para que a potência científica brasileira se converta em progresso socioeconômico tangível”.
A discussão sobre os riscos latentes revelou uma preocupação com fatores que, embora menos visíveis que cortes orçamentários, são igualmente paralisantes, a exemplo de ameaças cibernéticas, barreiras regulatórias e crises climáticas. A defesa da abertura global e da circulação de talentos estrangeiros é, segundo a análise da Dra. Margarida Mano, essencial para a resiliência acadêmica e a vitalidade das nações, contrapondo-se a políticas que limitam a entrada de cérebros e o compartilhamento de dados.
Finalmente, a Dra. Mano elucidou o “Paradoxo da Produtividade”, onde a abundância de dados e ferramentas não se traduz automaticamente em ganhos de eficiência. “O gargalo, frequentemente, reside na gestão institucional e na defasagem de competências para a adoção tecnológica. Diante da concentração de poder em grandes plataformas digitais, a governança pública assume o papel de reequilibrar o sistema através de regras que protejam a autonomia sem sufocar a inovação. A conclusão é inequívoca: a CT&I deve ser tratada como uma política de Estado perene e um pacto social indissociável do desenvolvimento econômico e social”.
O XI Congresso ABIPTI acontece em São Paulo, de 4 a 6 de maio, no Villa Glam, em Moema. É uma realização Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação, e conta com o patrocínio do ICTi Itaú Unibanco, Finep, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Governo Federal e CNPq.






